365 metros: Alemanha ergue a turbina eólica mais alta do mundo - Antena Web Notícias


2026-10-03 14:13 por Liny Silva

Aerogerador construído em Brandemburgo é o mais alto do mundo. O projeto pretende verificar se os ventos a grande altitude podem aumentar a produção eólica e abrir novos caminhos para a transição energética europeia.

A 365 metros de altura, o novo aerogerador de Schipkau, no estado alemão de Brandemburgo, tornou-se, segundo a empresa Gicon e a agência federal de inovação Sprind, o mais alto do mundo. A estrutura fica apenas três metros abaixo da Torre de Televisão de Berlim e entra no grupo das construções mais altas da Alemanha.

O recorde é impressionante, mas não é esse o principal objetivo do projeto. O centro do rotor encontra-se a 300 metros de altura, muito acima da posição habitual dos aerogeradores terrestres. A Gicon quer testar se, nessa altitude, os ventos mais fortes e regulares podem aumentar significativamente a produção de eletricidade.

A instalação deverá entrar em funcionamento em novembro. Só então começará o verdadeiro teste à tecnologia.

Uma turbina experimental

A máquina instalada em Schipkau tem uma potência nominal de 3,8 megawatts e um rotor com 126,2 metros de diâmetro. Segundo estimativas anteriormente divulgadas pela Gicon, deverá produzir pelo menos cerca de 18 gigawatts-hora de eletricidade por ano, o equivalente ao consumo de aproximadamente 6000 agregados familiares.

É importante distinguir estes números das projeções para futuras versões da tecnologia. Os valores de 30 a 33 gigawatts-hora por ano apresentados pela empresa referem-se a instalações de maior potência, a partir de cerca de oito megawatts. Para essas futuras máquinas, a Gicon aponta também para custos de produção inferiores a cinco cêntimos por quilowatt-hora.

São, por enquanto, previsões. O protótipo de Schipkau terá de fornecer os primeiros dados reais sobre o desempenho de uma instalação desta dimensão.

A lógica por detrás do conceito é conhecida: à medida que aumenta a altitude, o vento tende a ser menos afetado pelo relevo, árvores e construções e, em regra, torna-se mais forte e regular.

O vento a 300 metros

Antes de construir a torre, a Gicon e a Sprind procuraram verificar se essa vantagem era mensurável no local. Para isso, foi instalado em Klettwitz, nas proximidades de Schipkau, um mastro de medição que chegou aos 300 metros de altura.

Os dados recolhidos confirmaram diferenças significativas. No período analisado, a velocidade média do vento medida pelo mastro foi de 6,66 metros por segundo aos 150 metros, 7,38 metros por segundo aos 200 metros e 8,51 metros por segundo aos 300 metros. Medições efetuadas com Lidar apresentaram valores semelhantes.

Também os períodos de vento muito fraco foram menos frequentes a maior altitude. Os resultados dão fundamento à hipótese de que uma turbina instalada mais acima pode beneficiar de um recurso eólico mais consistente.

Isso não significa, porém, que esteja demonstrada a vantagem económica da tecnologia.

Uma análise publicada pela Sprind e pela Gicon calculou, com base nos dados de Klettwitz, o potencial de uma turbina Vestas de 9,5 megawatts. Nesse cenário, a produção anual bruta estimada aumentaria de 22,4 gigawatts-hora a 150 metros para 36,6 gigawatts-hora a 300 metros, uma diferença de 63,4%.

A Gicon apresenta, para determinadas comparações, ganhos de produção que podem chegar aos 220%. Esse valor depende da configuração e da referência utilizadas e não constitui ainda um resultado operacional do protótipo de Schipkau.

Uma torre concebida para grandes alturas

A dimensão da estrutura obrigou também a desenvolver soluções específicas de engenharia. A torre utiliza mais de 2000 toneladas de aço e cerca de 22000 componentes individuais.

Um dos principais desafios é a montagem. As gruas convencionais utilizadas na construção de parques eólicos não estão concebidas para elevar componentes desta dimensão até 300 metros.

A solução desenvolvida pela Gicon utiliza a própria estrutura como parte do processo de elevação. A turbina é preparada a uma altura inferior e posteriormente içada através de um sistema hidráulico de cabos, conhecido como "strand jacking", até à posição final.

A construção não decorreu sem problemas. No final de 2025, foram detetadas irregularidades em elementos de aço fornecidos por um subempreiteiro, o que levou à suspensão dos trabalhos. Os componentes foram posteriormente examinados e, em alguns casos, substituídos.

A construção foi retomada em março de 2026 e a estrutura atingiu a altura final em setembro. Durante a fase de montagem, as condições meteorológicas também obrigaram a interrupções temporárias.

A primeira pedra do projeto tinha sido lançada em setembro de 2024.

Um laboratório na região do carvão

Schipkau situa-se na Lusácia, uma região marcada durante décadas pela exploração de lignite e que procura hoje novas atividades económicas e energéticas.

A escolha do local não é casual. A zona dispõe de terrenos e infraestruturas energéticas e tem uma longa experiência na produção de eletricidade. A transformação da região tornou-a num dos laboratórios da transição energética alemã.

A Gicon pretende aproveitar essa infraestrutura para desenvolver um conceito de produção em vários níveis. A ideia passa por combinar painéis solares ao nível do solo com aerogeradores convencionais e, numa camada superior, turbinas de grande altura.

Segundo a empresa, essa utilização do mesmo espaço poderia aumentar significativamente a produção energética por área. Gicon e Sprind estimam que, em teoria, até 4000 torres deste tipo poderiam ser instaladas como uma segunda camada em parques eólicos existentes na Alemanha.

É uma estimativa de potencial, e não um plano de construção.

Mais produção não elimina os problemas de rede

O projeto surge num momento em que a Alemanha enfrenta outro desafio: transportar a eletricidade produzida nas regiões mais ventosas para os grandes centros de consumo.

Quando determinados troços da rede ficam congestionados, os operadores podem reduzir temporariamente a produção de algumas centrais e aumentar a produção noutras localizações. Este processo, conhecido como "redispatch", é uma das ferramentas utilizadas para manter o equilíbrio do sistema elétrico.

Os números oficiais mostram a dimensão do fenómeno. Em 2023, foram reduzidos cerca de 9,7 terawatts-hora de produção eólica no âmbito da gestão de congestionamentos da rede: aproximadamente 5,7 TWh de eólica marítima e 4 TWh de eólica terrestre.

Nesse mesmo ano, os custos totais da gestão dos congestionamentos chegaram a cerca de 3,1 mil milhões de euros. Cerca de 600 milhões de euros estiveram relacionados com a redução da produção renovável.

Não se trata simplesmente de eletricidade que desaparece. Quando uma central é obrigada a produzir menos, outras podem aumentar a produção para preservar o equilíbrio entre oferta e procura. O processo, porém, tem custos e revela as limitações da atual infraestrutura de transporte.

É neste contexto que a Gicon e a Sprind veem uma possível vantagem na produção eólica a grande altitude. Se for possível produzir eletricidade de forma rentável em mais locais, a expansão da energia eólica poderá ser mais distribuída.

Mas uma torre mais alta não resolve automaticamente os congestionamentos. O benefício dependerá do local onde as turbinas forem instaladas, dos momentos em que produzirem eletricidade e da capacidade disponível para a transportar.

Uma nova geografia para a energia eólica?

No final de 2025, a Europa tinha cerca de 304 gigawatts de capacidade eólica instalada, entre parques terrestres e marítimos, segundo dados da WindEurope divulgados pelo Bundesverband WindEnergie.

A Alemanha liderava com cerca de 77,7 gigawatts, seguida pelo Reino Unido, com aproximadamente 31,6 gigawatts, e por Espanha, com 31,2 gigawatts. Em 2025, a Alemanha acrescentou cerca de 5,7 gigawatts de nova capacidade eólica.

Para os promotores da tecnologia de grande altura, a possibilidade de aproveitar ventos a 300 metros poderá alterar a geografia da produção eólica. Regiões onde os ventos junto ao solo são menos favoráveis poderão tornar-se, em determinadas condições, economicamente interessantes.

O potencial interessa particularmente à Europa porque a expansão das energias renováveis exige mais do que instalar novas turbinas. É necessário encontrar espaço, melhorar a utilização das infraestruturas existentes e reduzir a dependência de combustíveis importados.

Questões ambientais

Levar os rotores para centenas de metros acima do solo coloca novas questões ambientais.

O mastro de Klettwitz foi equipado com instrumentos para estudar não apenas o vento, mas também a presença de morcegos. Os dados foram utilizados no processo de avaliação ambiental do projeto.

A operação prolongada da turbina permitirá obter informação adicional sobre aves, morcegos e outros efeitos ambientais numa faixa da atmosfera pouco explorada pelos aerogeradores convencionais.

Os promotores sustentam que os estudos realizados não apontam para um impacto ambiental incompatível com a instalação. A experiência de operação deverá, contudo, fornecer dados mais relevantes para avaliar a possibilidade de repetir o conceito em maior escala.

Uma aposta política

O projeto enquadra-se na estratégia alemã de expansão das energias renováveis.

Em março de 2026, o ministro federal do Ambiente, Carsten Schneider, apresentou no Bundestag o Programa de Proteção Climática 2026. O documento reúne 67 medidas e pretende alcançar, até 2030, uma redução adicional de mais de 25 milhões de toneladas de CO₂.

Entre as medidas anunciadas estão concursos para 12 gigawatts adicionais de energia eólica terrestre. Segundo Schneider, isso deverá corresponder a cerca de 2000 aerogeradores adicionais face ao planeamento anterior.

A expansão pretende reduzir a utilização de combustíveis fósseis importados e aumentar a produção energética dentro da Alemanha.

Para uma tecnologia experimental como a de Schipkau, a questão será saber se pode contribuir para esse objetivo sem aumentar desproporcionalmente os custos de construção, manutenção e integração na rede.

O verdadeiro teste começa agora

O recorde dos 365 metros está alcançado. A parte mais importante do projeto começa, contudo, quando a turbina entrar em funcionamento.

Será então possível verificar se os ventos medidos a 300 metros se traduzem na produção prevista, quantas horas por ano a instalação consegue operar e quanto custa manter uma estrutura desta dimensão.

Também será necessário comparar os resultados com os de aerogeradores convencionais e perceber se o aumento de produção compensa os custos adicionais de uma torre muito mais alta e complexa.

As projeções para futuras máquinas de maior potência — incluindo os 30 a 33 gigawatts-hora anuais e custos inferiores a cinco cêntimos por quilowatt-hora — terão igualmente de ser confrontadas com os dados reais da operação.

Schipkau é, por enquanto, um laboratório a 365 metros de altura. O sucesso do projeto não será medido pela altura da torre, mas pela eletricidade que conseguir produzir, pelo preço a que a produzir e pela facilidade com que essa energia poderá ser integrada no sistema.

Se os resultados forem positivos, o recorde de engenharia poderá transformar-se no primeiro passo para uma nova forma de explorar a energia eólica terrestre na Alemanha e, eventualmente, noutras regiões da Europa.

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Palavras-chave: eletricidade, energia, energia renovável, transição energética, aerogerador, energia eólica, Gicon, Sprind, Schipkau

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