Stanford ajuda a recriar acústica de Santa Sofia em igreja histórica de Istambul - Antena Web Notícias


2026-09-25 15:32 por Rafaela Maia

A acústica da Basílica de Santa Sofia, em Istambul, na Turquia, é objeto de um trabalho que une ciência, música e preservação histórica. Pesquisadores ligados à Universidade Stanford, nos Estados Unidos da América, desenvolveram técnicas capazes de recriar digitalmente a experiência sonora do monumento, conhecido pela maneira como sua arquitetura transforma vozes e cânticos em uma atmosfera de reverberação prolongada.

O projeto permite investigar como a música religiosa era ouvida em espaços bizantinos, aproximando o público contemporâneo de uma experiência que atravessa séculos de história. A iniciativa também chama a atenção para o patrimônio arquitetônico de Istambul e para a importância da preservação de igrejas históricas menos conhecidas.

Como os pesquisadores conseguem captar o som?

A técnica utilizada pelos pesquisadores tem uma origem curiosa: o rebentar de um balão.

Durante as primeiras pesquisas, realizadas em 2010, a historiadora de arte Bissera Pentcheva recebeu autorização para realizar medições no interior de Santa Sofia, que na época funcionava como museu. Equipada com dois microfones posicionados próximos aos ouvidos, ela registrou o som de um balão rebentado sob a grande cúpula do edifício. O ruído se espalhou pelo ambiente, refletiu nas paredes, colunas e demais superfícies e retornou aos microfones em diferentes intervalos. A gravação permitiu identificar a chamada resposta ao impulso, uma espécie de impressão digital acústica do monumento.

Com esses dados, os pesquisadores desenvolveram um modelo computacional capaz de aplicar as características sonoras de Santa Sofia a gravações feitas em outros locais. Em determinadas condições, a reverberação do monumento pode chegar a aproximadamente 11 segundos, fazendo com que uma nota musical continue ressoando enquanto outras já estão sendo cantadas.

No projeto atual, os cânticos são gravados em Atenas, na Grécia, por um grupo de 30 cantores litúrgicos, sob a direção do maestro Gregorios Daravanoglou. O repertório contempla 120 salmos e hinos da tradição bizantina.

Os arquivos são enviados à Califórnia, onde a equipe de Jonathan Abel, do Centro de Pesquisa Computacional em Música e Acústica de Stanford (CCRMA), realiza o processamento digital.

Depois de receberem a assinatura acústica de Santa Sofia, as gravações retornam a Istambul. Na igreja de Panagia Balinou, um sistema composto por 30 alto-falantes especiais distribui o som pelo ambiente, criando uma experiência imersiva para os visitantes.

A instalação utiliza a tecnologia CAVIAR (Controlled Acoustic Virtual Interactive Rendering), desenvolvida em Stanford para reproduzir virtualmente as características acústicas de outros espaços. Esta é a primeira aplicação do sistema em um ambiente religioso fora do meio acadêmico.

Igreja esquecida recupera importância

O projeto também representa uma nova fase para a igreja da Dormição da Mãe de Deus de Balinou, conhecida como Panagia Balinou, localizada no histórico bairro de Balat, em Istambul, nas proximidades do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla.

Embora suas fundações remontem ao período bizantino, a estrutura atualmente visível foi construída em 1730, durante o domínio otomano. O templo está ligado à história da comunidade greco-ortodoxa da cidade e à família Cantacuzeno, uma importante linhagem da tradição bizantina.

Durante décadas, a igreja permaneceu praticamente esquecida e em estado de deterioração. Sua recuperação foi possível graças ao apoio de doadores, especialmente do empresário Vyron Nikolaïdis, fundador e presidente do grupo PeopleCert.

As obras permitiram recuperar não apenas a estrutura física, mas também a atividade religiosa do local. O sino voltou a tocar na Páscoa depois de 30 anos de silêncio, enquanto a igreja realizou seu primeiro batismo em 72 anos.

Atualmente, o templo recebe aproximadamente 2.500 visitantes por ano, segundo Symeon Soltaridis, presidente da comunidade grega ortodoxa de Balinou.

A recuperação do edifício e a instalação do sistema sonoro transformaram o espaço em um ponto de encontro entre patrimônio material e imaterial, permitindo que visitantes conheçam a arquitetura histórica e tenham contato com a tradição musical bizantina.

Santa Sofia: um monumento de quase 1.500 anos

A Basílica de Santa Sofia foi construída entre 532 e 537, durante o reinado do imperador bizantino Justiniano I, quando Istambul ainda era conhecida como Constantinopla.

Considerada uma das grandes realizações da arquitetura bizantina, tornou-se um dos principais centros religiosos do cristianismo oriental. Após a conquista otomana de Constantinopla, em 1453, foi convertida em mesquita. Posteriormente, funcionou como museu, até voltar a ser utilizada como mesquita em 2020.

Sua enorme cúpula, os revestimentos de mármore e a disposição arquitetônica criam condições acústicas singulares, que influenciavam diretamente a execução dos cânticos religiosos.

Para os pesquisadores, recuperar essa dimensão sonora significa preservar uma parte da história que não pode ser compreendida apenas por fotografias, documentos ou pela observação das estruturas físicas.

A iniciativa em Panagia Balinou demonstra como a tecnologia pode contribuir para a valorização do patrimônio cultural, permitindo que sons associados a monumentos históricos sejam estudados, reproduzidos e compartilhados com novas gerações.

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