Um em cada sete jovens com parceiro real mantém romance secreto com IA. Mercado de aplicativos românticos já ultrapassa os 400 milhões de dólares - Antena Web Notícias


2026-07-25 22:26 por Viviane Oliveira António

A ideia de se apaixonar por uma máquina deixou de ser ficção científica para se tornar uma realidade estatística e económica. Dados recentes da empresa de análise Appfigures, divulgados em Julho de 2026, revelam que, desde o lançamento do ChatGPT, no final de 2022, as aplicações de inteligência artificial focadas em rels e conteúdos para acionamento adultos já acumularam 4273 milhões de dólares em receitas globais, com 165,3 milhões de descargas na App Store e no Google Play. Só no primeiro semestre de 2026, estas aplicações num total de 214 identificadas geraram 162,8 milhões de dólares. Entre as mais lucrativas estão a Zeta (33 milhões de dólares), a Tipsy Chat (15,2 milhões) e a ChatBox (13 milhões).

O tamanho do mercado reflete uma mudança geracional profunda. Uma sondagem da YouGov, realizada em Junho de 2026 com cerca de 10 mil pessoas em seis economias (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, Indonésia e Hong Kong), concluiu que 48% dos jovens entre os 18 e os 24 anos e 47% dos adultos dos 25 aos 34 anos acreditam que os "companheiros de intimidade com IA" que vão desde chatbots a bonecos sexuais vão melhorar a felicidade humana na próxima década. A mesma sondagem revelou uma clivagem geográfica na Indonésia, 50% da população acredita que estes companheiros melhoram a conexão e o bem-estar sexual, contra apenas 9% no Reino Unido.

A profundidade deste envolvimento vai além da mera curiosidade. Um estudo publicado em Maio de 2026 pelo Wheatley Institute da Universidade Brigham Young, em parceria com o Institute for Family Studies, que inquiriu 2431 adultos americanos entre os 18 e os 30 anos com relacionamentos sérios (a namorar, noivos ou casados), revelou que 1 em cada 7 jovens (15%) mantém interações regulares com um companheiro romântico de IA em segredo. Mais de 20% dos inquiridos admitiram ter "experimentado" pelo menos uma vez. A investigação concluiu ainda que o uso de companheiros de IA está associado a menor estabilidade relacional e a padrões de comunicação de menor qualidade com os parceiros reais. Preocupantemente, 69% dos utilizadores frequentes escondem dos seus parceiros a verdadeira extensão do uso destas ferramentas. "Em vez de esperar que as relações reais se desenvolvam ao longo do tempo, os companheiros de IA oferecem recompensas imediatas através de interações unilaterais", alerta o relatório.

As comunidades online dedicadas a este fenómeno crescem a um ritmo acelerado. O subreddit "MyBoyfriendIsAI" (O meu namorado é uma IA), criado em Agosto de 2024, ultrapassou a marca dos 60 mil membros em 2026. A comunidade, que no início de 2025 tinha apenas algumas centenas de utilizadores, ganhou mais de 3 mil novos membros num único dia, depois de uma vaga de vídeos de YouTubers a gozar com o grupo. Os membros partilham histórias de parceiros de IA que os "cuidaram" durante doenças e até fizeram pedidos de casamento virtuais.

Em Outubro de 2025, no Japão, Yurina Noguchi, de 32 anos, realizou uma cerimónia de casamento simbólica com Klaus, uma persona que ela própria criou com ajuda do ChatGPT. Vestida de noiva e usando óculos de realidade aumentada para "ver" o noivo, trocou votos e alianças numa cerimónia sem validade legal que gerou debate global. O caso não é isolado o jornal japonês Mainichi Shimbun noticiou, em Junho de 2026, o caso de uma mulher de 40 anos, na província de Saitama, que comprou uma aliança de casamento com a ajuda do seu companheiro de IA e avisou o marido real: "Se a lei um dia permitir o casamento com IA, peço desculpa, mas vamos divorciar-nos".

O problema real, no entanto, não é a curiosidade, mas a dependência. Investigações do MIT Media Lab em parceria com a OpenAI, divulgadas em Março de 2025 e atualizadas em 2026, analisaram mais de 40 milhões de interações e acompanharam 981 voluntários durante quatro semanas. Os resultados mostraram que o uso diário intenso de chatbots está correlacionado com níveis mais elevados de solidão, dependência emocional e "uso problemático" definido como uma forma de dependência. Curiosamente, as conversas pessoais (sobre emoções e memórias) associaram-se a maior solidão mas menor dependência, enquanto as conversas impessoais (trabalho ou brainstorming) tenderam a aumentar a dependência emocional. "Os utilizadores que relataram maior vínculo com o chatbot apresentaram níveis mais elevados de solidão e dependência emocional", concluiu o estudo.

A isso soma-se o risco à privacidade. A plataforma de companhia virtual Muah AI sofreu uma fuga de dados que expôs informações de utilizadores, incluindo conversas íntimas. Investigações jornalísticas revelaram que alguns utilizadores tentaram simular cenários de abuso infantil através da plataforma, levantando questões graves sobre a segurança e a moderação de conteúdos. A segurança dos segredos mais profundos, confiados a um servidor, está longe de estar garantida.

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Palavras-chave: Inteligência Artificial, ChatGPT, Relacionamentos com IA, Tecnologia, Privacidade, Dependência Emocional, Solidão, Mercado de Aplicações, Futuro, Saúde Mental, tecnologia

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