Estados Unidos: Hasbro enfrenta polémica por cláusula que permite uso de vozes infantis em inteligência artificial na série Porquinha Peppa - Antena Web Notícias


2026-06-27 22:26 por Carlos Nhabetse

A gigante Estadunidense do entretenimento Hasbro está no centro de uma polémica após alegadamente incluir cláusulas de inteligência artificial (IA) nos novos contratos dos jovens atores que dão voz às personagens da série infantil Porquinha Peppa. A medida tem sido contestada por profissionais do setor, que alertam para riscos relacionados com o consentimento infantil, os direitos de imagem e voz e a utilização permanente desses dados por sistemas de IA.

Segundo informações divulgadas pela revista especializada Deadline, a nova cláusula contratual exige que os jovens intérpretes cedam os direitos de utilização das suas vozes para materiais comerciais da franquia, permitindo, na prática, que a empresa possa recorrer à clonagem de voz por inteligência artificial para recriar digitalmente as interpretações e utilizá-las em campanhas promocionais e outros conteúdos, potencialmente por tempo indeterminado.

A medida motivou uma forte reação da associação Agents of Young Performers (AYPA), que reuniu quase mil assinaturas numa carta aberta condenando a introdução de cláusulas de IA em contratos de artistas infantis. Embora o documento não mencione diretamente a Hasbro nem a série Porquinha Peppa, fontes ligadas ao processo confirmaram à Deadline que a denúncia se refere à popular produção de animação.

Na carta, os profissionais defendem que crianças não possuem capacidade legal para prestar um consentimento plenamente informado sobre a utilização da sua voz para treinar modelos de inteligência artificial. Além disso, argumentam que a autorização concedida por pais ou tutores não deve servir como um consentimento ilimitado para captar, clonar, reutilizar ou comercializar a voz de menores.

"Nenhuma criança deve ver a sua futura identidade profissional moldada por um modelo de IA criado antes de ter idade suficiente para compreender as suas consequências", refere o documento, que também rejeita contratos que concedam direitos ilimitados sobre a voz dos jovens intérpretes.

As preocupações surgem numa altura em que a utilização de inteligência artificial na indústria audiovisual se expande rapidamente. Segundo a carta aberta, cláusulas semelhantes podem permitir não apenas a clonagem de vozes, mas também o treino de modelos de IA, a geração de conteúdos sintéticos e até o licenciamento dos dados vocais a terceiros sem novo consentimento ou pagamento de direitos.

Em resposta à polémica, um porta-voz da Hasbro afirmou à revista Variety que a empresa está ciente da carta aberta, mas recusou comentar negociações ou contratos específicos. A empresa garantiu, contudo, que "a proteção dos artistas infantis faz parte da identidade da Hasbro" e assegurou estar comprometida em acompanhar a evolução das normas relacionadas com a inteligência artificial de forma responsável e transparente.

Lançada no Reino Unido em 2004, a série Porquinha Peppa tornou-se um fenómeno mundial, com mais de 400 episódios produzidos. Em 2019, a Hasbro adquiriu a marca através da compra da Entertainment One por cerca de 3,8 mil milhões de dólares. Ao longo dos anos, as vozes das personagens infantis têm sido regularmente substituídas à medida que os atores crescem, uma vez que as personagens mantêm sempre a mesma idade.

A controvérsia reacende o debate internacional sobre os limites da utilização da inteligência artificial, especialmente quando envolve crianças, direitos de personalidade, propriedade intelectual e a proteção dos artistas mais jovens perante tecnologias capazes de reproduzir vozes humanas com elevado grau de realismo.

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Palavras-chave: Estados Unidos da América, Hasbro, Porquinha Peppa, Inteligência Artificial, Clonagem de voz, Consentimento infantil, Atores infantis, direitos de imagem e voz

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