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2026-06-26 23:45 por Viviane Oliveira António
Nos últimos meses, a exposição de crianças a situações de abandono, violência e negligência tornou-se uma preocupação em Portugal e em França. Três casos, com contornos muito distintos, expuseram a vulnerabilidade dos mais novos quando os adultos falham e as instituições chegam tarde ou de forma incompleta.
Em maio, dois irmãos franceses, de três e cinco anos, foram encontrados sozinhos ao início da noite do dia 19, junto à Estrada Nacional 253, na zona de Monte Novo do Sul, entre Alcácer do Sal e a Comporta. Um casal que passava na estrada resgatou os menores, que vagueavam e choravam numa zona rural. As crianças transportavam uma mochila com uma muda de roupa, fruta e uma garrafa de água. Segundo relatos, a mãe terá vendado os filhos e dito que iam fazer um jogo, antes de os abandonar e partir de carro com o companheiro.
A mãe, de 41 anos, e o companheiro, de 55 anos, ambos franceses, foram detidos pela Guarda Nacional Republicana em Fátima, a cerca de 200 quilómetros do local do abandono, dois dias depois, a 21 de maio. O Tribunal de Setúbal decretou prisão preventiva para o casal. O padrasto foi ainda filmado a agredir um dos menores no interior de um café, o que justificou a acusação adicional de ofensa à integridade física qualificada. A mãe encontra-se detida na cadeia de Tires e o companheiro na prisão anexa à Polícia Judiciária, em Lisboa.
As crianças residiam com a mãe em Colmar, no departamento francês do Alto Reno. Os pais estavam separados e o pai tinha direito de visita limitado e supervisionado. Em 11 de maio, a mãe terá desaparecido com as crianças, tendo o pai apresentado queixa por rapto internacional junto das autoridades francesas.
O tribunal de Família e Menores de Santiago do Cacém decidiu o regresso das crianças a França, ao abrigo do regulamento europeu que atribui ao país de residência habitual a competência para definir as medidas de proteção. As crianças ficarão ao cuidado dos serviços de apoio social de Colmar, enquanto é avaliada a possibilidade de integração junto de familiares. O pai das crianças afirmou pensar nelas “a cada segundo” e que mantém o telemóvel permanentemente ligado, de dia e de noite, à espera de um contacto das autoridades.
A morte de Lara, uma menina de oito anos, em Valpaços, chocou o país. A criança vivia com o pai e a madrasta. Terá sido no domingo anterior que uma nova discussão entre o filho da suspeita e o pai de Lara desencadeou uma vingança. A mulher, de 48 anos, terá ido buscar a criança à escola sob o falso argumento de que haveria uma consulta médica marcada. Lara nunca mais foi vista. Nessa mesma noite, o pai da criança participou o desaparecimento da filha à GNR de Valpaços.
A madrasta terá confessado a autoria do crime. Asfixiou a enteada e abandonou o corpo na serra da Padrela. A Polícia Judiciária de Vila Real encontrou o corpo e a mochila da criança na quarta-feira. A mulher foi presente a primeiro interrogatório judicial em 19 de junho de 2026, no Tribunal de Vila Pouca de Aguiar. Durante a sessão, terá chorado “copiosamente”. A advogada da arguida confirmou que a cliente “confessou muitos dos factos” e “mostrou arrependimento”. Segundo a advogada, a intenção da mulher era “retirar a menina da escola e assustar o pai”, mas “as coisas descontrolaram-se”. A arguida alegou ainda problemas emocionais perante a juíza.
O tribunal decidiu aplicar a medida de coação mais grave, prisão preventiva, no estabelecimento prisional de Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos. À saída do tribunal, a advogada Mónica Teixeira destacou a colaboração da cliente com a justiça. O fim da sessão ficou marcado por tumultos, com populares a forçarem a barreira policial de escolta da madrasta.
Em França, durante a intensa onda de calor que atingiu o país no final de junho, duas crianças, de dois e quatro anos, foram encontradas mortas dentro de um carro em Carpentras, no sul de França. O caso ocorreu na tarde de 22 de junho, num estacionamento residencial no bairro de Bois de l'Ubac. As crianças foram encontradas em paragem cardiorrespiratória no carro da mãe, na garagem da família. Os socorristas não conseguiram reanimá-las.
A procuradora de Carpentras, Hélène Mourges, afirmou que as causas das mortes ainda não foram determinadas, mas que a onda de calor é a hipótese mais provável. Não se sabe exatamente como as crianças entraram no veículo, ou durante quanto tempo permaneceram no interior. Os primeiros relatos sugerem que as duas crianças entraram no carro sem o conhecimento da mãe, de 33 anos. A mãe foi levada sob custódia pelos serviços de emergência e ainda não foi interrogada.
A França enfrentava uma onda de calor de intensidade "excecional", com 49 departamentos em alerta vermelho. As temperaturas aproximavam-se dos 40 graus Celsius. A agência meteorológica Météo-France previu uma situação “generalizada, prolongada e intensa” de calor extremo. Esta vaga de calor lembrava a de agosto de 2003, que causou quase 15 mil mortes em França. Na segunda-feira, um total de 845 escolas e colégios foram encerrados. O Presidente francês, Emmanuel Macron, apelou à proteção dos idosos e das pessoas mais vulneráveis.
O que une estes casos não é apenas a dor das famílias. É a repetição de um padrão em que crianças pequenas aparecem como as vítimas mais expostas de decisões adultas, conflitos familiares, abandono e falhas institucionais. Quando a infância entra nas manchetes dessa forma, a pergunta deixa de ser retórica e passa a ser uma acusação ao modo como a sociedade protege, ou deixa de proteger, os seus mais frágeis.
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