Estimados leitores. Antes de qualquer outra coisa, preciso dizer que: o facto de ser o fundador, e o atual proprietário e presidente do Conselho de Administração da Antena Web, não me retira a legitimidade para opinar sobre o mundo que me rodeia. Por isso deixo claro que qualquer opinião expressada aqui, não envolve mais nada que o meu ponto de vista, meu, enquanto cidadão.
o contexto
Recentemente saiu um vídeo de uma música em que são utilizadas as vozes de Dilsinho e Luísa Sonza, uma versão brasileira de um tema de Taylor Swift a que chamaram A Sina de Ofélia. A nota é que eles nunca a cantaram.
O tema é uma versão brasileira da música The Fate of Ophelia, da autoria de Taylor Swift, inspirada em Shakespeare
O vídeo teve muito sucesso, e a música também, nas plataformas digitais. Ao constatar-se que se tratava de uma violação de direitos de autor, e já com a música a monetizar, dita "obra" foi retirada das plataformas digitais.
e está certo! Não está?
Sim, mas o certo acaba aqui.
Recentemente a Warner Music fez um acordo com a plataforma Suno, sobre a criação de música. Isto permitirá à editora internacional ter muito mais controlo sobre o que é gerado por aquela plataforma, e isso inclui receber dividendos da música gerada por IA. O sistema Opte In permitirá aos artistas aceitar, ou não, que as suas músicas e vozes sejam usadas nos processos criativos por inteligência artificial. O mundo aplaude.
O mundo... aplaude. Ou seja: prolifera-se a criação de músicas utilizando vozes reais de pessoas que são internacionalmente reconhecidas. Paga-se para ter acesso a esses downloads, e como a plataforma paga às discográficas (porque já não é só a Warner), a violação da propriedade intelectual já é permitida e até bem vista. Como é possível?
Então imaginem agora os detentores dos direitos das obras de Marco Paulo permitirem o acesso legal de uma IA à sua voz. Podemos começar a ter legalmente músicas novas que Marco Paulo nunca cantou?
Lady Gaga? Chris Martin, ou Dilsinho e Luisa Sonza?
mas Carlos, é justo que se a IA usa músicas para criar novas melodias, que os artistas sejam ressarcidos por isso
Não. Não é. Eu sou um ser-humano. Oiço bandas da pesada como Kiss, ACDC, Gunz N Roses, e decidi inspirar-me nessas sonoridades para criar algo único a partir daí. Lembro-me de um riff de guitarra, que não copiando, me inspira para criar o meu próprio riff àquele estilo. Tenho que pagar a todos? E se eu decidir cantarolar a música na plataforma e conseguir o meu próprio riff de guitarra, imitando o som de uma guitarra elétrica e conseguindo que Suno ou Udio a reproduzam da forma que me agrada? Vai a plataforma pagar aos artistas quando fui eu quem tive a ideia, e a IA apenas reproduz o que eu trautiei?
não tem comparação. Um humano cria a uma velocidade, a IA a outra
Naturalmente. Mas isso é válido para tudo. Sabia-se disso quando se disponibilizou a IA para o público. Mas nem é a velocidade que as discográficas criticam. Criticam o facto de não estarem a receber nada por isso.
E depois, o que tem a ver a velocidade com vozes não reconhecíveis pelo público, com a velocidade e vozes reconhecidas pelo público? A rapidez com que uma IA cria 20 melodias devia ser exatamente o motivo pelo qual as discográficas se deviam afastar desse processo, e sobretudo, não querer que os seus artistas fossem sujeitos à criação legal de obras que usurpam as suas vozes. Não se importam. Desde que recebam, não se importam.
mas então, qual seria o ponto de equilíbrio?
Complexo, não é? ... Não. É muito simples.
- música feita por IA não entra nas plataformas de streaming. Existem ou devem existir, plataformas para música gerada por humanos, e música gerada por IA.
- músicas que violem direitos de autor devem ser eliminadas ou haver uma penalização adequada: no caso, ou pelas plataformas que acidentalmente criem melodias, e no seu processo de criação acabem por plagiar, ou o autor, se se ficar comprovado que trautiou uma melodia piratiada com a finalidade de plagiar.
- músicas que violem os direitos de propriedade intelectual, como uma voz humana, devem ser ainda mais penalizadas, e essa penalização deve recair sempre sobre as plataformas que o permitem, ou sobre o autor, se se ficar comprovado que utilizou alguma técnica de engenharia reversa ou outra, para adulterar o sistema a ponto de conseguir utilizar ilicitamente uma voz de um artista, para qualquer finalidade, sendo que neste último caso haveria um duplo crime, como o uso de engenharias reversas ou outras técnicas que violem a integridade de um website ou plataforma online, para fins ilícitos.
só?
Sim, só isso. A divisão da música feita por IA e música feita por humanos, o impedimento de vozes de artistas em música por IA, ou seja, em suma, a junção dos 2 mundos sem o consentimento de todas as partes envolvidas, mesmo para fins lúdicos, deve ser penalizada. E isto vale para música, fotografia, ou qualquer outro tipo de criação humana.
e então devia ser livre, o uso de qualquer música para treinar a IA?
Quanto maior a cultura musical da IA, melhor para todos, menos para quem não quer melhorar. A IA deve ter os seus limites, como por exemplo, o tempo limite para cada obra gerada, 10 minutos, por exemplo. O limite de canais de áudio para separar instrumentos e vozes. E atinja-se a qualidade que se atingir, o ser-humano sempre terá condições para superar a inteligência artificial. Basta querer, e ter condições técnicas para isso.
Controlando a IA, permitindo que os artistas legalizem a usurpação da sua voz em detrimento da aceitação ou revalidação de contratos com editoras, melhoramos apenas a condição financeira das discográficas, para que possam investir menos e ganhar mais. Não pensem que nos futuros contratos não virá uma cláusula que aumentará custos de aceitação ou revalidação, caso o artista não permita o uso das suas obras e voz para treinar as inteligências artificiais.
E, sejamos honestos: tecnologia é usada há décadas, mas sobretudo na última, e em excesso: microfones com inteligência artificial a que docemente chamamos de microfones com afinação, autotune que quando bem aplicado é muito pouco percetível, e menos ainda ficou quando o artista ao vivo já consegue, graças a esses microfones, cantar quase como no estúdio, espetáculos plenos de audiovisual ou de um parcial entre tocado exclusivamente ao vivo ou tocado ao vivo com algum suporte de gravação, samples que já estão gravados e são disparados por teclados, estúdios caríssimos por hora que obrigam a tocar depressa mesmo que mal, e depois corrigir-se através de editores de áudio, e outras situações. Portanto, se alguma discográfica, ou opinion makers vierem para a televisão incutir a ideia de que as plataformas de geração de música ou imagens por IA devem pagar aos autores porque isso é que é o justo, desconfiem. Porque nenhuma discográfica que aceita ou faz estes acordos, está realmente preocupada com os artistas que representam.
mas Carlos, e os artistas? Estás a esquecer-te dos artistas!
Vejam a reação de Dilsinho e Luisa Sonza, sobretudo da Luisa Sonza, nas redes sociais, em que até aparecem em vídeos com a música, segundo noticiou o canal CNN Portugal esta manhã.
Com os vários artistas que já tive a oportunidade de conversar, entrevistas que estão
disponíveis no nosso site, não vejo grande preocupação com esse assunto. Eles estão confiantes que o seu trabalho será sempre melhor que o da IA, e nem a usam para ajudar no seu processo criativo. São as discográficas quem mais ganham, e os artistas quem mais perdem, com estes acordos que já estão para entrar em vigor com a Suno e a Udio. Músicas com vozes que nós conhecemos, de artistas fisicamente vivos e não vivos, podem continuar a inundar os catálogos de músicas como Spotify ou Deeser, porque agora sim vai estar tudo legal. E dito controlo limita a criatividade de todos, já que as IAS vão ter de deixar de encontrar música na internet para se inspirarem nela. Como a base de dados será mais pequena, a probabilidade de similaridades entre músicas já criadas será substancialmente maior. Perdem artistas, perdem autores, perde o público, perdem os criadores de música por IA... enfim, a curto prazo perdemos quase todos. A médio/longo perdemos todos, inclusive as plataformas de streaming que se verão muito mais necessitadas de espaço e infraestrutura para armazenar músicas ou imagens feitas por IA, e as discográficas, que pensavam que iam ganhar, mas verão os seus artistas desvalorizarem porque até o Elton John será capaz de fazer um dueto com a Louane de uma música popular portuguesa, ou a Lady Gaga será capaz de cantar uma música exclusivamente feita para o teu aniversário em tailandês na 1ª estrofe, coreano na 2ª estrofe e mirandés no refrão!
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