A crise política na Guiné-Bissau agudizou-se nas últimas 24 horas com a formalização de um governo de transição liderado pelos militares. O General Horta Inta-A Na Man, até agora Chefe do Estado-Maior do Exército, foi empossado como Presidente de Transição pelo recém-criado "Alto Comando Militar", na sequência da suspensão da ordem constitucional ocorrida ontem.
O desfecho surge apenas quatro dias após as eleições gerais de 23 de novembro, cujos resultados permanecem por apurar oficialmente, lançando o país numa nova espiral de incerteza institucional.
Impasse Pós-Eleitoral e Intervenção Militar
O escrutínio do passado domingo opôs o Presidente cessante, Umaro Sissoco Embaló, ao candidato da oposição Fernando Dias da Costa, apoiado pela coligação PAI-Terra Ranka. Ambos reivindicaram a vitória antes da divulgação dos dados pela Comissão Nacional de Eleições (CNE).
Fontes locais indicam que a intervenção militar ocorreu no momento em que a contagem provisória de votos sugeria uma derrota expressiva de Embaló. Sob a alegação de "preservar a segurança nacional" e travar "irregularidades graves", as Forças Armadas ocuparam a sede da CNE e as principais artérias de Bissau, decretando o recolher obrigatório.
Embaló em Exílio no Senegal
O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Senegal confirmou, ao início desta tarde, que Umaro Sissoco Embaló se encontra em Dakar. O chefe de Estado deposto terá aterrado na capital senegalesa num voo especial, após mediação de emergência conduzida pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).
A saída de Embaló, descrita oficialmente como uma medida para garantir a sua integridade física, é encarada com ceticismo pela oposição guineense. Figuras ligadas ao PAIGC e ativistas da sociedade civil denunciaram a movimentação como um "golpe fantoche" ou "auto-golpe", orquestrado para evitar a humilhação de uma derrota eleitoral pública e impedir a transferência democrática de poder para Fernando Dias da Costa.
O Novo Homem Forte: General Horta Inta-A
No seu primeiro discurso à nação, o General Horta Inta-A justificou a tomada de poder com a necessidade de evitar um "banho de sangue" decorrente da polarização política. O militar anunciou a suspensão da Constituição e a dissolução de todas as instituições eleitas, prometendo um "período de transição de um ano" para reformar o sistema eleitoral.
Paralelamente, relatos não confirmados oficialmente dão conta da detenção de várias figuras da oposição, incluindo dirigentes da coligação PAI-Terra Ranka, cujo paradeiro permanece incerto.
Reação da Comunidade Internacional
A comunidade internacional reagiu com condenação unânime. Em Lisboa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português apelou ao "restabelecimento imediato da ordem constitucional" e à "conclusão transparente do apuramento eleitoral". A CPLP e a União Europeia manifestaram "profunda preocupação", enquanto a CEDEAO convocou uma cimeira extraordinária para discutir a imposição de sanções económicas e diplomáticas aos líderes da junta militar.
A situação em Bissau permanece tensa, com o comércio encerrado e uma forte presença militar nas ruas, enquanto a população aguarda o desenrolar dos acontecimentos.
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