A violência doméstica voltou a subir em Portugal e alcançou, nos primeiros nove meses de 2025, o valor mais alto dos últimos sete anos. De janeiro a setembro, a GNR e a PSP registaram 25.327 ocorrências, segundo dados da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG).
O agravamento nacional surge em paralelo com um alerta global: “quase uma em cada três mulheres já foi vítima de violência doméstica ou sexual”, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Entre 1 de julho e 30 de setembro foram contabilizadas 10.558 situações, o trimestre mais grave desde que há registos comparáveis. Só neste período ocorreram cinco homicídios, elevando para 18 o total de vítimas mortais em 2025 16 mulheres e dois homens.
Desde 2018, nunca um terceiro trimestre tinha atingido números tão elevados: o mais próximo foi o de 2022, com 8.887 casos. Apesar disso, o número de homicídios mantém-se idêntico ao de 2024.
Os dados acumulados mostram tendência crescente:
• 2019 — 22.362 ocorrências
• 2020 — 21.623
• 2021 — 19.781
• 2022 — 23.264
• 2023 — 23.306
• 2024 — 23.302
• 2025 — 25.327 (até setembro)
Segundo o Relatório Anual de Segurança Interna de 2024, no ano passado as forças policiais receberam 30.221 participações por violência doméstica, das quais resultaram 23 homicídios em contexto de intimidade.
OMS: violência contra as mulheres continua “uma das crises de direitos humanos mais negligenciadas"
À escala global, a OMS denuncia a ausência de progressos significativos ao longo das últimas duas décadas. “A violência contra as mulheres continua a ser uma das crises de direitos humanos mais persistentes e negligenciadas do mundo, com muito pouco progresso em duas décadas”, afirma a organização.
Os números são avassaladores:
• 840 milhões de mulheres já sofreram violência física ou sexual.
• 316 milhões foram vítimas nos últimos 12 meses de um parceiro íntimo.
• 263 milhões sofreram violência sexual por parte de não-parceiros.
Segundo Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS:
“Nenhuma sociedade se pode considerar justa, segura ou saudável enquanto metade da sua população vive com medo.”
O relatório revela ainda que:
• A redução anual da violência por parceiro íntimo é de apenas 0,2% em 20 anos.
• Apenas 0,2% da ajuda global ao desenvolvimento foi destinada, em 2022, a programas de prevenção — e esse financiamento diminuiu em 2025.
Regiões mais afetadas no último ano:
• Oceânia (exceto Austrália e Nova Zelândia) — 38%
• Sul da Ásia — 19%
• Ásia Central e Meridional / Países Menos Desenvolvidos — 18%
• África Subsaariana e Pequenos Estados Insulares — 17%
Regiões com menor prevalência:
• Europa / América do Norte — 5%
• América Latina e Caraíbas — 7%
• Leste e Sudeste Asiático — 8%
A OMS pede respostas mais fortes, desde a responsabilização dos agressores ao reforço dos serviços de apoio e da recolha de dados, sobretudo entre mulheres indígenas, migrantes, com deficiência ou em contextos humanitários.
“Por detrás de cada estatística há uma vida alterada para sempre”, lembra Tedros.
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