A Cimeira do Clima em Belém, no Brasil, viveu horas de tensão e indefinição esta quarta-feira. Num dia que ficará marcado por um incêndio no Pavilhão de África, pela evacuação total do recinto e pela polémica ausência de referências aos combustíveis fósseis no novo texto de negociação, foi finalmente confirmado que a Turquia será a sede da COP31, enquanto a Austrália assumirá a liderança das negociações internacionais.
A decisão surgiu após longas horas de impasse, durante as quais chegou a ser considerada a possibilidade da Alemanha assumir a organização da cimeira de 2026. O acordo final determina que a Turquia ficará responsável pela logística, enquanto a Austrália, além de conduzir as negociações, organizará ainda um pré-COP no Pacífico, reforçando a sua influência diplomática na região.
Novo texto da presidência brasileira ignora abandono dos combustíveis fósseis
A presidência da COP30 divulgou esta madrugada um novo rascunho de acordo, mas o documento de sete páginas não contém qualquer referência ao abandono dos combustíveis fósseis, tema defendido por dezenas de países e considerado central para limitar o aquecimento global.
A ausência surpreende, sobretudo depois de o Presidente brasileiro, Lula da Silva, ter proposto na abertura da COP30 a criação de um roteiro para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, seguindo o que fora iniciado, mas não concluído, na COP28 no Dubai.
Além disso, um grupo de mais de 30 países, incluindo França, Reino Unido, Alemanha e Colômbia, enviou uma carta à presidência brasileira pedindo uma revisão urgente do texto, alertando:
"Estamos profundamente preocupados com a proposta atual, a aceitar ou a rejeitar."
Segundo cientistas presentes na cimeira, as propostas apresentadas até agora são “provocatórias” e insuficientes para garantir o cumprimento das metas climáticas internacionais.
Incêndio no Pavilhão de África força evacuação total da COP30
Durante a tarde, um incêndio deflagrou no Pavilhão de África, obrigando à evacuação imediata de milhares de participantes. As chamas começaram por volta das 14:00 locais (17:00 em Lisboa) e foram extintas em cerca de seis minutos, mas o fumo intenso provocou momentos de pânico.
A ministra portuguesa do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, que estava no Pavilhão de Portugal, relatou:
“Estou bem, assim como toda a delegação portuguesa. Nós fomos dos primeiros a sair.”
A ministra acrescentou que sentiu cheiro a queimado e ordenou:
“Vamos todos embora, vamos sair daqui para longe.”
A presidência brasileira reportou que 13 pessoas foram assistidas por inalação de fumo e que todas se encontram estáveis. Os trabalhos da cimeira ficaram temporariamente suspensos.
Último dia de negociações marcado por pressão inédita
Esta quinta-feira, a COP30 entra no último dia oficial de negociações, com o presidente da conferência, André Corrêa do Lago, sob enorme pressão para apresentar um texto de consenso entre quase 200 países.
O maior ponto de discórdia é, novamente, o abandono progressivo das energias fósseis, cuja ausência no texto está a gerar protestos diplomáticos.
A conferência, que decorre desde 10 de novembro, tem encerramento previsto para sexta-feira, mas vários negociadores admitem que as conversações poderão prolongar-se.
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