O sindicato Solidaires Douanes (Fronteiras Solidárias), que representa guardas costeiros franceses, exigiu a suspensão imediata dos “planos mortais” para intercetar pequenas embarcações de migrantes no Canal da Mancha, alertando que as novas táticas “colocam vidas em risco” e “violam convenções internacionais”.
Num comunicado dirigido ao diretor-geral das Alfândegas de França, Florian Colas, o sindicato descreve o plano — que prevê intervenções até 300 metros da costa francesa — como “uma doutrina desumana, absurda e vergonhosa”.
“Uma doutrina tão desumana, absurda e vergonhosa corre o risco de provocar naufrágios e mortes, cuja responsabilidade moral e criminal recairia inteiramente sobre o pessoal responsável pelas intervenções”, denunciou o sindicato, citado pelo Guardian.
França sob pressão britânica
O protesto surge num momento de tensão entre Paris e Londres, com o Ministério do Interior britânico a confirmar esta quinta-feira que a França está a rever a sua “doutrina marítima”, no âmbito do acordo bilateral para travar a imigração ilegal através do Canal da Mancha.
“As travessias em pequenas embarcações são totalmente inaceitáveis. A França é um parceiro fundamental no combate à migração ilegal e continuamos a trabalhar em estreita colaboração enquanto revêm a sua doutrina marítima, o que permitirá intervir em águas pouco profundas”, declarou um porta-voz do Governo britânico.
Londres afirma que, graças ao “acordo histórico” com Paris, os migrantes que cruzem o canal em pequenas embarcações “podem agora ser detidos e removidos”.
Crise política ameaça acordo
Entretanto, a BBC avança que parte do acordo franco-britânico pode nunca ser implementada, devido à instabilidade política em França. Fontes de segurança marítima citadas pela estação britânica descrevem o plano como “um golpe político” e confirmam que as novas regras estão suspensas.
O acordo foi assinado durante o mandato de Yvette Cooper (então ministra britânica do Interior) e Bruno Retailleau (antigo ministro francês do Interior), mas ambos já deixaram o cargo. Cooper é agora chefe da diplomacia britânica, enquanto Retailleau abandonou o Governo após a nomeação de Sébastien Lecornu como primeiro-ministro.
“Considerámos na altura que era perigoso. As regras, por enquanto, são as mesmas. Não há nenhuma mudança na forma como fazemos as coisas”, afirmou Jean-Pierre Cloez, porta-voz do sindicato da polícia francesa, ao Guardian.
Londres mostra frustração
O chefe da segurança das fronteiras britânicas, Martin Hewitt, expressou frustração pela demora francesa na aplicação das novas táticas, responsabilizando a instabilidade política em Paris pelo impasse.
“A falta de coordenação e as hesitações políticas em França estão a travar medidas mais eficazes contra os traficantes e os barcos ilegais”, disse Hewitt perante a Comissão de Assuntos Internos da Câmara dos Comuns.
Contexto
O Canal da Mancha é há vários anos um dos principais corredores de migração irregular para o Reino Unido, com milhares de pessoas a tentar a travessia todos os meses em embarcações precárias.
Apesar de reforços policiais e de acordos bilaterais, os números de travessias continuam a aumentar, e as autoridades alertam para o risco de tragédias humanitárias se as táticas de interceção se tornarem mais agressivas.
Para estar sempre a par do que acontece sobre os temas que mais o cativam ou preocupam, subscreva os nossos alertas