Estudo da Fundação Champalimaud revela papel decisivo da medula espinal no comportamento sexual masculino - Antena Web Notícias


2025-10-18 19:06 por Rita Saraiva

Durante décadas, acreditava-se que o cérebro controlava todo o comportamento sexual masculino — da excitação à cópula —, cabendo à medula espinal apenas o papel de executar o ato final: a ejaculação.
Um novo estudo da Fundação Champalimaud (FC) vem agora revolucionar essa visão, demonstrando que a medula espinal é muito mais do que um mero transmissor de ordens cerebrais.
A investigação, publicada recentemente, identificou um circuito espinal chave que não só participa na ejaculação, mas também na excitação e na coordenação do ato sexual, revelando uma complexidade até agora desconhecida na forma como o sistema nervoso regula o comportamento sexual dos mamíferos.
“A medula espinal não é apenas uma estação retransmissora passiva”, explica Susana Lima, investigadora principal do Laboratório de Neuroetologia da Fundação Champalimaud. “Ela integra estímulos sensoriais, responde à excitação e ajusta a sua resposta consoante o estado interno do animal. É muito mais sofisticada do que imaginávamos."

Um circuito espinal com funções complexas


A equipa concentrou-se nos neurónios Gal⁺, um grupo de células nervosas da medula espinal que expressam a molécula galanina (Gal). Estes neurónios foram identificados como os responsáveis por coordenar a ejaculação através da ativação direta do músculo bulboesponjoso (MBE) — o músculo que impulsiona a expulsão do esperma.
Com recurso a técnicas de mapeamento anatómico e eletrofisiologia, os investigadores conseguiram demonstrar pela primeira vez uma ligação funcional direta entre os neurónios Gal⁺ e os neurónios motores que controlam o MBE.
Curiosamente, estes neurónios não se limitam à ejaculação: também recebem estímulos sensoriais do pénis e integram sinais relacionados com a excitação e o estado interno do animal, funcionando como um centro de decisão local sobre o comportamento sexual.

O cérebro e a medula em diálogo


Ao contrário do que se pensava, o cérebro não comanda sozinho o ato sexual. O estudo revela que há um diálogo contínuo entre o cérebro e a medula espinal, com sinais de inibição e ativação a fluírem em ambas as direções.
“Pensamos na medula espinal como uma espécie de encruzilhada”, explica Susana Lima. “Ela orquestra a sequência e o timing da cópula e determina se as condições são adequadas para a ejaculação.”
A investigação sugere ainda que o chamado ‘ponto sem retorno’, momento em que a ejaculação se torna inevitável, pode não ser definido pelo cérebro, mas sim por sinais provenientes da próstata, funcionando como um indicador interno de prontidão.

Implicações clínicas e novos caminhos de investigação


Além de expandir a compreensão da neurobiologia do sexo, o estudo abre novas perspetivas para o tratamento de disfunções sexuais e perturbações eréteis, mostrando que a medula espinal desempenha um papel ativo na regulação da resposta sexual.
O próximo passo da equipa da Fundação Champalimaud será registar em tempo real a atividade dos neurónios Gal⁺ durante o comportamento sexual, procurando compreender como interagem com o cérebro e outros órgãos, como a próstata.
“Estamos apenas a começar a entender quão profundamente a medula espinal contribui enquanto participante ativo no comportamento sexual”, conclui Ana Rita Mendes, coautora do estudo. “Não é apenas um canal; é um colaborador,"

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