A indústria farmacêutica internacional está a afastar-se do Reino Unido. Multinacionais como a Merck (MSD), a AstraZeneca ou a Eli Lilly têm vindo a suspender ou a cancelar investimentos milionários no país, citando um ambiente regulatório e fiscal cada vez menos competitivo. O fenómeno está a gerar preocupação no setor das ciências da vida e a levantar dúvidas sobre o futuro da inovação farmacêutica britânica.
Nos últimos meses, várias empresas anunciaram cortes e reavaliações de projetos, atribuindo a decisão ao peso das políticas de preços e ao chamado “clawback” — um mecanismo que obriga as farmacêuticas a devolver uma parte significativa das receitas obtidas com a venda de medicamentos ao Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS).
Pressão fiscal e falta de incentivos afastam investimento
Segundo a Associação Britânica da Indústria Farmacêutica (ABPI), os encargos impostos através do atual regime VPAG (Voluntary Scheme for Branded Medicines Pricing, Access and Growth) tornaram o Reino Unido “um país pouco atrativo” para investir. As empresas argumentam que o modelo penaliza a inovação, reduzindo as margens de lucro e desencorajando o lançamento de novos medicamentos.
A comparação com outros mercados, nomeadamente os Estados Unidos, é inevitável. “Enquanto outros países recompensam o investimento em investigação e desenvolvimento, o Reino Unido continua a impor taxas elevadas e incerteza regulatória”, apontou um porta-voz da ABPI, citado pela Reuters.
Projetos cancelados e sinais de alarme
A farmacêutica norte-americana Merck (MSD) cancelou recentemente um centro de investigação avaliado em mil milhões de libras, que estava previsto para a zona de King’s Cross, em Londres. A empresa justificou a decisão com a “falta de condições favoráveis à inovação”.
Também a AstraZeneca anunciou a suspensão de um investimento de 200 milhões de libras no seu campus de Cambridge, uma decisão que, segundo analistas, reflete o clima de incerteza que domina o setor.
Relatórios independentes dão conta de uma queda acentuada no investimento direto estrangeiro nas ciências da vida e de um menor número de ensaios clínicos realizados no país. Especialistas alertam que esta tendência poderá ter impacto direto no acesso a medicamentos inovadores e na criação de emprego altamente qualificado.
Chamadas à ação
A ABPI e várias associações da área pedem ao Governo britânico uma revisão urgente das políticas de preços e a introdução de incentivos fiscais que tornem o país mais competitivo. Sem medidas rápidas, avisam, o Reino Unido arrisca perder a posição de destaque que detinha na investigação biomédica europeia.
“O setor está a enviar um sinal claro: o modelo atual é insustentável”, sublinhou Richard Torbett, diretor executivo da ABPI. “Se o governo não agir, os investimentos irão simplesmente para outros países.”
Desafio para o futuro
Downing Street reconhece a preocupação, mas garante estar a trabalhar num novo enquadramento para equilibrar os custos do NHS com a necessidade de atrair investimento. No entanto, as negociações decorrem num contexto delicado, com pressões orçamentais crescentes e um mercado global altamente competitivo.
Para já, o recuo das farmacêuticas lança um aviso: sem previsibilidade e incentivos adequados, o Reino Unido poderá perder terreno na corrida global pela inovação médica.
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