No dia em que as autoridades palestinianas reportam 39 mortes em Gaza, 12 de pessoas que aguardavam por comida, e uma delas uma criança, no dia em que o Catar, país aliado dos Estados Unidos, viu a sua capital, Doha, ser atacada por forças israelitas, o Yemen registou o maior ataque israelita de sempre. Mas vamos aos factos.
faixa de Gaza
As autoridades palestinianas reportaram 39 mortes, em mais um ataque das FDI (Forças de Defesa Israelitas), na faixa de Gaza. Destas, 12 eram pessoas que estavam em pontos de espera por comida, 11 adultos e uma criança.
Catar. Ataque foi dirigido a um escritório do Hamas
O ataque foi feito com armas de destruição precisa, ou armas de precisão, e tiveram como alvo um edifício que albergava escritórios do Hamas. O ataque terá provocado 6 mortos, entre eles 5 elementos do que os países alinhados com os Estados Unidos da América chamam de organização terrorista. Mas, aparentemente, nenhum era alto cargo do Hamas.
Compreendamos que, ao contrário do que acontece em Gaza, em Doha, capital catari, os escritórios do Hamas albergam sobretudo a força política da organização pró-palestiniana, aliás, força política com a qual se têm negociado entregas de reféns, cessares fogo, e outros acordos similares, sendo o Catar um dos países mais bem sucedidos e mais empenhados, na mediação deste conflito que conheceu uma nova etapa, que vigora desde 7 de Outubro de 2023. O Catar já reagiu, alegando uma flagrante violação do direito internacional.
mas, afinal, o que aconteceu ontem no Yemen?
Num dia a ferro e fogo, as FDI também atacaram Al Hudaydah, no Yemen, com consequências imediatas inéditas: 35 vítimas mortais e mais de 60 feridos. Diferentemente do que aconteceu no Catar, este ataque foi levado a cabo pelos caças das Forças de Defesa Israelitas, que entraram em território yemenita. Esta intervenção militar é uma resposta direta a um míssil disparado pelos Houthis, e que terá atingido o principal aeroporto de Israel. Mas as informações são imprecisas e ambíguas, com falta de evidências de que de facto o míssil tenha entrado em território israelita. Mas foi o suficiente para esta incursão militar na quarta cidade do norte do Yemen, e que detém o principal porto no mar vermelho.
porque está Israel envolvido em tantas frentes militares?
Para entender o ataque recente no Iémen, é crucial ter uma visão mais ampla do conflito. Desde 2014, o país tem sido palco de uma guerra civil entre as forças governamentais, apoiadas por uma coligação liderada pela Arábia Saudita, e o movimento rebelde Houthi, que controla a maior parte do norte do país. Os Houthis, um grupo de cariz religioso e político, recebem apoio do Irão, um dos principais rivais de Israel na região. Esta aliança indireta coloca os Houthis na mira de Israel e dos seus aliados.
Recentemente, mais concretamente a 28 de Agosto, outro ataque israelita em Sanaa, capital do Yemen, também provocou estragos sem precedentes, no caso políticos, desde logo porque causou a morte de Ahmed Ghaleb Nasser al-Rahawi, até então, primeiro ministro dos Houthis, bem como de outros ministros.
A informação foi conhecida através de uma declaração do chefe do Conselho Político Supremo Houthi, Mahdi al-Mashat, que confirmou a morte do primeiro ministro e de outros ministros do governo houthi.
"Anunciamos o martírio do combatente Ahmed Ghaleb Nasser Al-Rahawi (…) juntamente com vários dos seus colegas ministeriais, que foram alvo do traiçoeiro inimigo criminoso israelita”
O comunicado anuncia ainda o novo primeiro ministro, a título interino: Mohammed Ahmad Mouftah. Ele era, até à morte de Ahmed Ghaleb Nasser al-Rahawi, o viceprimeiro ministro.
Desde 7 de Outubro que os Houthis se têm solidarizado com a causa palestiniana de uma forma mais envolvida. Isso colocou-os na mira das FDI. Várias ações militares dos Houthis foram tomadas no mar vermelho, com ataques a navios mercantes e militares, de Israel e não só, que fizeram a comunidade internacional voltar a mirada e a mira, para esta parte do globo terrestre.
O facto dos Houthis serem apoiados pelo Irão também ajuda às ostilidades, uma vez que o Irão é um "velho" inimigo de Israel, pelo menos é assim que o mundo ocidental perceciona. Para os Houthis, ou para o Irão, o inimigo é precisamente Israel.
o Catar e o 11 de Setembro de 2001
Sobre o Catar a situação é mais complexa. Já era pelo ataque na capital, Doha, capital essa de um país alinhado com os Estados Unidos da América. Mais especificamente porque esse ataque visava a morte dos negociadores com Israel, por parte do Hamas. Mas a situação ficou ainda pior quando na noite desta quarta-feira Bejamin Netanyahu não descartou uma nova incursão no Catar, e noutros pontos, se se justificar. Foi ainda mais longe ao comparar o 7 de Outubro de 2023, com o 11 de Setembro de 2001, e as atitudes similares dos Estados Unidos da América.
“O que fizeram os Estados Unidos depois do 11 de setembro? Prometeram caçar os terroristas que cometeram este crime atroz, onde quer que estivessem”, disse, e prosseguiu: “países que condenam deviam ter vergonha” referindo-se à contradição entre o apoio dado aos Estados Unidos na luta contra o terrorismo. “Deviam aplaudir Israel por defender os mesmos princípios e pô-los em prática”
Ainda em 2001 uma retaliação contra o grupo terrorista Al-Qaeda começou a ser levada a cabo, levando os estadunidenses até ao Afeganistão e ao Iraque. Do primeiro saíram sem conseguir cumprir objetivos, restabelecer a ordem, deixando, em 2021, o poder nas mãos daqueles a quem tentaram tirar, 20 anos antes. No Iraque a intervenção visava destruir Sadam Ussein, e para tal intervenção o foco era a eliminação de armas de destruição massissa, que não só nunca foram encontradas, como se provou nunca terem existido. Apesar das milhares de vidas perdidas nesses conflitos, menos do que as que se perderam na Palestina, o único ataque bem sucedido parece ter sido a Osama Bin Laden, cuja morte foi declarada vários anos depois.
O primeiro ministro catari, Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani, diz que Israel acabou com as esperanças da libertação de mais reféns, perceção diferente tem o presidente israelita ao dizer que o ataque em Doha pode abrir as portas para o fim da guerra, e a paz definitiva.
Finalmente, em comunicado, o Hamas disse: "Confirmamos que o inimigo não conseguiu assassinar os nossos irmãos da delegação de negociação. Entretanto, vários dos nossos irmãos mártires ascenderam aos mais altos postos de glória", pode ler-se.
e agora?
Em catadupa sucedem-se os factos, e as declarações, bem como as críticas de vários estados soberanos, incluíndo a União Europeia. Quanto à toma de medidas concretas, nada se sabe, mas certo é que a breve intervenção militar no Catar por parte de Israel, levou o conflito a um novo patamar. Neste momento Israel tem 6 frentes de guerra abertas. Uma em suspenso, contra território no Líbano, outra de baixa intensidade, nos montes Golan, na Síria, 2 pontos quentes, o Irão, e mais recentemente o Catar. A Palestina, com Cisjordânia em crescendo e Gaza no seu momento mais crítico, e o Yemen, também no seu momento mais crítico, são as piores frentes de guerra que envolvem Israel, que, apesar das críticas, mantém todos os apoios efetivos dos países alinhados com os Estados Unidos da América.
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